Como aumentar a auto-estima de seu filho sem transformá-lo num tirano
Milagros Pérez Oliva
El País
Conseguir que os filhos tenham auto-estima elevada é um dos objetivos que se colocam muitos pais, mas nem sempre os métodos que utilizam para tanto são os mais adequados. Às vezes, querendo cultivar a auto-estima, o que fazem é fomentar a egolatria. A linha que separa a auto-estima da egolatria se origina nas primeiras relações que a criança tem com seu entorno.
Todos os pais querem que seus filhos sejam felizes e estão dispostos a fazer o possível para consegui-lo, mas muitas vezes tentam pelo caminho errado.
Conscientes de que a base da felicidade está em uma boa auto-estima, muitos pais se preocupam em seguir estratégias que permitam cultivar a auto-estima dos filhos, mas às vezes erram o caminho e, em vez de uma criança feliz e equilibrada, acabam cultivando um ególatra, um pequeno tirano. Saber encontrar a linha divisória entre auto-estima e egolatria é um dos nós da psicologia evolutiva.
Dorothy Corkille, em "El niño feliz" (ed. Gedisa) [A criança feliz], obra que já tem 31 edições, estabelece uma primeira diferença: "Auto-estima é o que cada pessoa sente por si mesma. Seu julgamento geral sobre si mesma, na medida em que sua própria pessoa lhe agrada. Auto-estima elevada não consiste em uma presunção ruidosa. É, sobretudo, um respeito silencioso por si mesmo, a sensação do próprio valor. Quando alguém a sente no fundo de seu ser, alegra-se por ser quem é. A presunção, em troca, não passa de uma capa delgada que cobre a falta de auto-estima. Aquele cuja auto-estima é elevada não perde tempo em impressionar os demais: sabe que tem valor".
Esse é o ponto de chegada, mas qual é o caminho? O caminho começa no próprio momento em que a criança abre os olhos e começa a ver o mundo. A psicanalista Isabel Menéndez afirma: "Entende-se por auto-estima que a criança tenha uma percepção de si mesma como alguém valioso e querido, especialmente pelos pais. Ela é construída quando os adultos acompanham a criança no crescimento, impondo-lhe limites, quer dizer, educando-a e formando sua personalidade. E fazendo-o com respeito, que consiste em não forçar a criança, mas sim motivá-la para que aja de determinada maneira".
"Auto-estima é a capacidade de estar bem consigo mesmo e com o entorno, em um sentido profundo, íntimo", acrescenta Lurdes Cestero, psicóloga clínica. "Às vezes se confunde auto-estima com egolatria. A egolatria é uma estima inflada, baseada em ouvir 'você é maravilhoso', 'você nunca tem culpa de nada'. Na realidade, o que a criança percebe é que seus pais negam suas verdadeiras necessidades, que no fundo a ignoram, com o que estão lhe dizendo que não tem valor."
As crianças nascem sem nenhum sentido do eu. Vão construindo-o conforme vivem, mas como constroem a idéia de si mesmas? Corkille utiliza uma metáfora muito bonita para explicar isso, a teoria dos espelhos: as crianças constroem sua identidade a partir das imagens de si mesmas que observam projetadas nos outros. O primeiro espelho no qual se olham é o olhar da mãe, o rosto do pai, as emoções que sua mera existência provoca neles. Os pais são um espelho psicológico no qual os filhos se vêem; vão se construindo por dentro em função do que observam de si mesmos no espelho que são os pais e as pessoas próximas.
Se percebem que são valiosos para seus pais, se sentirão valiosos. Mas o espelho é feito de um vidro emocional muito delicado. Não é feito só de palavras; por isso não basta dizer cem vezes à criança "eu a amo" se o espelho do olhar, da expressão, o discurso não-falado, o que nunca engana, diz outra coisa. "Para sentir-se completamente bem por dentro, as crianças precisam de experiências vitais que provem que elas são valiosas e dignas de serem amadas", diz Corkille.
"Os pais são o modelo para tudo, tanto pelo que dizem como pelo que não dizem, e principalmente pelo que fazem", acrescenta Cestero. Ela observou em seu consultório que o amor e a atenção geram um círculo virtuoso, às vezes em ambas as direções: "Em geral, se a auto-estima dos pais está bem, a da criança também costuma estar", explica. "Para alguns pais, o fato de ter um filho é um motivo para fazer uma grande mudança interior. O amor pela criança os ajuda a modificar coisas que não gostam em si mesmos. E se a mudança funciona e é gratificante, se consolida."
Mas a auto-estima pode se ressentir se a imagem que a criança percebe no espelho das pessoas das quais depende for distorcida ou negativa. "Às vezes a origem do problema é que os pais transferem para os filhos suas próprias insatisfações", explica Menéndez, e alguns, mais que amor, lhes dão consentimento. Os pais que, querendo dar amor, consentem tudo, não estão cultivando a auto-estima dos filhos, mas sua egolatria.
"Uma criança ególatra é aquela que foi colocada num pedestal", continua. "São crianças às quais não se impuseram limites e que acabam sendo tiranas. Pode haver tiranos porque os adultos dão demasiado ou porque dão muito pouco. Também há falta de auto-estima por excesso de proteção. A superproteção não protege realmente a criança. A mãe superprotetora é mais dependente do filho, este percebe isso e pede cada vez mais. Acredita que a mãe é todo-poderosa e pensa que todo mundo é assim e que está à sua disposição. Um ególatra é uma criança que não foi frustrada adequadamente no momento em que era preciso fazê-lo, e no fundo também pode haver um grande sentimento de abandono, porque deixá-la fazer o que quer é na realidade abandoná-la."
Muitos pais não sabem ou não levam em conta que impor limites a seus filhos é amá-los. "Muitas vezes, quando os pais não colocam limites, na realidade estão depositando seu próprio narcisismo no filho", afirma Menéndez. "São pessoas que se sentem frustradas por não poder fazer o que querem e compensam essa sensação deixando que seu filho faça o que quiser."
Cestero insiste na importância do princípio de aceitação e acompanhamento. "Para que a criança se sinta valorizada, é muito importante diferenciar entre o comportamento da criança e a própria criança." Uma coisa é o que ela faz, algo que pode ser modificado, e outra o que ela é. Quando é corrigida, é preciso incidir sobre o que ela faz, sem questionar o que é. Ela é sempre amada pelo que é, mas é corrigida pelo que faz. É uma distinção sutil, mas de grande alcance. "É preciso dizer: 'isso que você fez não está certo', mas mantendo a conexão amorosa."
Essa distinção entre o ser e o fazer deve se refletir tanto na atitude quanto na linguagem. Não é a mesma coisa repreender uma criança que quebrou uma coisa dizendo-lhe que não deve pegá-la assim porque quebra, ou lhe dizer que é uma desastrada. Que uma coisa se quebre é um acidente, que alguém seja desastrado é um atributo que o define.
Menéndez descreve alguns dos sinais que podem alertar sobre a baixa auto-estima. Por exemplo, fazer constantemente coisas transgressivas só para chamar a atenção; ou a necessidade excessiva de destaque e de liderança também pode esconder uma criança narcisista com baixa auto-estima. "Como não se sente bem por dentro, tem necessidade de buscar constantemente a aprovação externa", explica. Isso também pode se expressar, no caso de crianças muito tímidas, na dificuldade para expressar seus sentimentos, em uma tendência a fechar-se.
O resumo seria que a auto-estima se constrói quando os pais apóiam seu filho com todas as suas conseqüências, seja como for, com as limitações que tenha, mesmo que não se adapte ao que eles esperavam. A criança deve perceber um amor incondicional, mas para que o perceba o amor deve ser efetivamente incondicional. Stanley Coopersmith, uma das referências em psicologia infantil, demonstrou com seus estudos que a auto-estima não tem a ver com a posição econômica da família, nem com a educação, nem com o lugar onde se nasce ou se vive. Não tem a ver com o nível educacional dos pais nem com o fato de a mãe trabalhar ou não. "Depende simplesmente da qualidade das relações que existem entre a criança e as pessoas que desempenham papéis importantes em sua vida", escreveu.
fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2007/04/27/ult581u2083.jhtm (só para assinantes UOL)
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Auto-estima, de novo
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Pra quê TV??
Uma vez por ano eles promovem a "Semana do Desligue a TV". Esse ano vai ser de 23 a 29 de abril, ou seja, daqui a 20 dias.
Lá no site deles você pode encontrar:
Além disso, essa semana eu recebi um excelente artigo por email que fala justamente do excesso de TV na infância, e que foi o que me fez escrever esse post.
É possível comprar amor?
Por Cássia D'Aquino*
Dentre meus 5432 defeitos, o favorito é ouvir a conversa de quem não conheço e, muitas vezes, nem vejo. Sou mestra em acompanhar conversas três mesas adiante. Sigo o assunto sem perder o fio, torço, acho um desaforo, mordo a língua para não dar palpite. Não bastasse pecar contra as boas maneiras, ainda me valho de várias dessas histórias como inspiração para meu trabalho. Como a que aconteceu há alguns meses, quando me preparava para deixar um hotel no interior de Minas.
Quando o jovem recepcionista desligou o telefone, pelo despudor do sorriso se adivinhava que eram ótimas notícias. Num transe gritou para o colega no final do balcão: "Eu vou ser pai!". O outro, seguido às rápidas congratulações, emendou:" Como presente, vou te dar o conselho mais importante para a sua vida de pai." (Nesse ponto - a carne é fraca - larguei caneta e papel e parei de fingir que não estava lá). "Compre outra TV! Ou você faz isso ou nunca mais vai assistir o que quiser. Só o que eles quiserem."
Muito embora possa compreender a aflição do conselheiro por alguma paz nas horas de repouso - sem disputas pelo controle remoto ou programação - acho improvável que com outra televisão em casa ele imponha sossego à convivência familiar. Pelo menos, não no médio e longo prazo. Essa convicção faz com que há anos eu convide os pais em minhas palestras a exercitarem a arte-zen de manter, justamente, uma única TV em casa. E que façam isso não "apesar" dos filhos. Mas por causa deles. Em benefício da prole.
Está claro que as crianças não possuem maturidade e discernimento para duelarem com o vigor publicitário. Se não há um adulto por perto - ao lado - a provocar sobre os usos e abusos de tudo quanto é posto à venda nos intervalos ou durante os programas ("Será que fulaninho usa mesmo esse tênis ou ele só quer que a gente acredite nisso?"), não há como imaginar que elas possam ser capazes de filtrar sozinhas, no abandono da "outra" TV, o que convém e o que não convém ao consumo infantil.
O fato é que as crianças brasileiras são as que passam mais tempo diante da televisão no mundo, seguidas pelas americanas, segundo com pesquisa da Eurodata TV Worldwide, divulgada no final de 2005 na França. Enquanto uma criança brasileira permanece 3 horas e 31 minutos por dia diante da televisão, as alemãs não ficam mais que uma hora e meia. E observe que na Alemanha 95% das casas possui acesso a TV a cabo e contam com ampla oferta de canais gratuitos. E lá, como aqui, a maioria dos pais e mães trabalham fora de casa. O que tira do ar, de vez, a idéia de que seja imprescindível contar com a babá eletrônica como sócia na educação das crias, a fim de mitigar os efeitos da dupla jornada.
O deslavado incentivo ao consumo infantil é apenas a ponta da minha preocupação nesse assunto. Durante o ano passado, o pediatra americano Isman Sharif, do Hospital de Crianças de Nova Iorque, avaliou em 4500 estudantes a influência do tempo gasto por eles assistindo à televisão ou jogando videogame sobre a vida escolar. Os resultados são alarmantes. O estudo demonstrou que as crianças que viam mais programas de televisão tinham pronunciada queda de desempenho, resultado de intensa dificuldade em compreender os conteúdos curriculares. Ou seja, o acesso indiscriminado à televisão mina aos poucos a confiança das crianças em sua capacidade intelectual, condição fundamental para que cresçam motivadas a conhecer e conquistar o melhor da vida e do mundo.
Há ainda um terceiro aspecto na relação crianças e televisão que considero importante abordar: o acesso a programas destinados a adultos, de modo especial as novelas - não importa em que horário sejam exibidas - e seu efeito sobre o modo como os pequenos vão construindo uma visão distorcida do poder do dinheiro. Em função do trabalho como educadora, volta e meia esbarro nas impressões que pulam das novelas para o cotidiano infantil. Mas talvez a situação mais emblemática tenha sido a discussão que assisti, há cerca de dois anos, numa turma de pré-escola, na cidade do Rio de Janeiro.
Com a intenção de provocar a distinção entre consumo e valores, a professora pedia à classe que listasse o que se pode e o que não se pode comprar com dinheiro. A cena corria de acordo com o desejado, até que entrou em pauta o amor. É possível comprar amor? E foi então que uma das meninas saiu com a seguinte afirmação: "Claro que dá para comprar amor! É só botar uns peitões de silicone e arranjar um cara bem rico. E aí deixar que ele compre o amor da gente". Cínica? Nem um pouco. Só uma noveleira de seis anos. Seis anos!
É possível disciplinar a convivência das crianças com a TV de muitas maneiras. Mas hoje vou insistir no básico: a família deve assistir à televisão junta, num único aparelho. Sem paz, é provável, mas também sem alienação. É importante aprender a negociar a programação, de modo que todos se interem das predileções de cada um. Afinal, se você não é capaz de suportar os interesses de seus filhos, não há razão para esperar que eles venham a se importar, nem agora nem nunca, com os seus.
*Cássia D'Aquino é especialista em educação financeira e membro da International Association for Citizenship, Social and Economics Education (IACSEE).
quarta-feira, 4 de abril de 2007
Dê o exemplo
Children see, children do
A ONG Autraliana NAPCAN que cuida exclusivamente de assuntos relacionados ao bem estar das crianças, lançou recentemente em todo território Australiano uma Campanha sensacional, com o slogan "As crianças vêm, as crianças fazem" (tradução livre). A campanha tenta despertar na população a necessidade de darmos sempre bons exemplos para nossas crianças.
Um bom exemplo de que a publicidade também pode e deve contribuir para ações sociais fortes e com propósitos bem definidos.
Las películas pirata se ven mal, pero tú como papá te ves mucho peor
O slogan "Os filmes piratas são mal vistos, mas você como pai se mostra muito pior" (tradução livre, pois é um trocadillho em espanhol difícil de traduzir) forma parte de uma campanha anti-pirataria no México. Foi lançada em março de 2006 na Cámara Nacional de la Industria Cinematográfica y del Videograma (Canacine) e responsabiliza os pais pela atitute que seus filhos podem vir a ter pela vida ao comprarem filmes "piratas".
Usando argumentos como "Se você compra filmes piratas, eu posso roubar", acompanhados da frase "O que você está ensinando a seus filhos?" se pretende estabelecer uma relação direta e imediata entre comprar um filme pirata e ensinar aos filhos que podemos conseguir as coisas sem esforço.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
Sobre a Barbie
Bem, vamos lá, eu vi que o assunto deu pano pra manga né?
Primeiramente eu quero deixar claro aqui que o artigo não é meu, eu não concordo com ele na íntegra. E, a propósito - sim - a Luiza tem Barbie. Mais de uma inclusive.
Uma vez esclarecido isso, eu acho que o texto é muito bom porque nos faz pensar sobre a nossa sociedade tão consumista. Sobre valorizar mais o TER do que o SER. Eu acho que o autor pegou a Barbie como um exemplo, talvez porque tenha sido o primeiro brinquedo que teve esse apelo de tantos acessórios. É lógico que os concorrente não são burros nem nada e copiaram a idéia. E hoje temos as Pollys (que a Luiza também tem), os Pôneis (que a Luiza não só ama mas tem verdadeira fixação pelo "cavalinho" como ela chama), os carrinhos e pistas Hot Wheels etc, etc, etc....
O fato é que temos que ficar atentos sim, porque a mídia bombardeia nossas crianças com as propagandas, muitas vezes enganosas, dos brinquedos que tem por aí. Eu me lembro muito bem da minha infância das propagandas do Playmobil. Quando a gente ganhava o Forte Apache ou qualquer outro cenário parecido, eu me lembro de ficar um pouco frustrada porque os bonecos não se mexiam como na propaganda. E eu vejo isso hoje em dia nas propagandas da Barbie, principalmente daquelas Fairytopia e Mermadia (não sei se escrevi os nomes corretamente). E a criança vê a Barbie voando na televisão, ganhando asas e quer por que quer aquilo também.
Cabe a nós ter o bom senso de mostrar aos nossos filhos que não podemos ter tudo que queremos. E que não somos melhores nem piores do que o outro pelo simples fato de possuir ou não um brinquedo.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
Para a gente pensar...
Barbie
por Rubem Alves
Fiquei comovido quando li que foram encontradas bonecas em túmulos de crianças no Egito, na Grécia e em Roma. Pude imaginar o que os pais deveriam estar sentindo ao colocar aquele brinquedo junto ao corpo da filha morta. Eles o faziam para que ela não partisse sozinha, para que ela não tivesse medo.
De fato, uma criança abraçada a uma boneca é uma criança sem medo, uma criança feliz. Os meninos, proibidos de ter bonecas, se abraçam aos seus ursinhos de pelúcia. E nós, adultos, proibidos de ter bonecas e de ter ursinhos de pelúcia, nos abraçamos ao travesseiro... Os objetos são diferentes, mas o seu sentido é o mesmo: o desejo de aconchego e de ternura. Por isso eu acho que o senhor e a senhora fizeram muito bem ao dar uma boneca de presente para a sua filhinha. Com uma exceção, é claro: se a boneca não foi a Barbie.
Porque a Barbie não é uma boneca. Falta a ela o poder que têm as outras bonecas, bebezinhos, de afugentar o medo e provocar sentimento maternais de ternura. Não posso imaginar uma menina dormindo abraçada à sua Barbie. Nenhum pai colocaria a Barbie no túmulo da filha morta. A Barbie não é boneca. É uma bruxa. Posso bem imaginar o espanto nos seus olhos. Eu imagino também os seus pensamentos: O Rubem perdeu o juízo. A Barbie é unta boneca de plástico, não mexe, não pensa, não fala. E agora ele diz que ela é uma bruxa... Que as bonecas, ao contrário das aparências, têm uma vida própria, eu aprendi no 2° ano primário. Minha professora me deu um livro sobre bonecas e bonecos: enquanto a gente estava acordado, elas ficavam deitadinhas, olhinhos fechados, fingindo que dormiam. Mas bastava que os vivos dormissem para que elas acordassem e se pusessem a falar coisas.
As bonecas foram os primeiros brinquedos inventados pelos homens. E foram também os primeiros instrumentos de magia negra. Um alfinete, aplicado no lugar certo de uma boneca - assim afirmam os entendidos - tem o poder de matar a pessoa que se parece com ela. Pois eu digo que a Barbie é uma bruxa. Bruxa enfeitiça. Enfeitiçada, a pessoa deixa de ter pensamentos próprios. Só pensa o que a bruxa manda. A pessoa enfeitiçada fica possuída pelos pensamentos da feiticeira e só pensa e faz aquilo que ela manda.
Se falo é porque vi, com esses olhos que a terra há de comer. Basta que as crianças comecem a brincar com a Barbie, para que fiquem diferentes. O pai manda, a mãe manda, a criança faz birra e não obedece. Não é assim com a Barbie. Basta que a Barbie mande para que elas obedeçam. De novo você vai me contestar, dizendo que a Barbie não fala e não tem vontade. Por isso não pode nem dar ordens e nem ser obedecida. Errado.
O fantástico é que ela, sem falar e sem ter vontade, tenha mais poder sobre a alma da criança que os pais. Quem me revelou isso foi o futurólogo Alvin Toffler, no seu livro O Choque do Futuro, que li em 1971. O capítulo "A Sociedade do Joga-Fora" começa com a Barbie. Nascida em 1959, em 1970 mais de 12 milhões já tinham sido vendidas. Um negócio da China. E por quê? Porque a Barbie, diferente das bonecas antigas, bebês que se contentam com uma chupeta e um chocalho, tem uma voracidade insaciável.
A Barbie é uma boneca que nunca está contente: ela sempre pede mais. E essa é a grande lição que ela ensina às crianças: Compra, por favor! Para se comprar há as roupas da Barbie, a banheira da Barbie, o secador de cabelo, o jogo de beleza, o guarda-roupa, a cama, a cozinha, o jogo de sala de estar, o carro, o jipe, a piscina, o chalé de praia, o cavalo e os maridos, que podem ser escolhidos e alternados entre o loiro e o Moreno etc. Etc. A Barbie está sempre incompleta. Portanto, com ela vem sempre uma pitada de infelicidade. Aliás, essa é a regra fundamental da sociedade consumiste: é preciso que as pessoas se sintam infelizes com o que têm, para que trabalhem e comprem o que não têm. A Barbie tem esse poder: quem a tem está sempre infeliz porque há sempre algo que não se tem, ainda. E os engenheiros da inveja, a serviço das fábricas, se encarregam de estar sempre produzindo esse novo objeto que ainda não foi comprado. Mas é inútil comprar. Porque logo um outro será produzido. É a cenoura na frente do burro... Ela nunca será comida.
Quem dá uma Barbie para uma criança põe a criança numa arapuca sem saída. Porque, ao ter uma Barbie, ela ingressa no Clube das Meninas que têm Barbie. E as conversas, nesse clube, são assim: Eu tenho o chalé de praia da Barbie. Você não tem. Ao que a outra retruca: - Não tenho o chalé, mas tenho o marido loiro da Barbie, que você não tem.
Essa é a primeira lição que a inofensiva boneca de plástico ensina. Ensina a horrível fala do eu tenho, você não tem. A maldição das comparações. A maldição da inveja. Você deve conhecer alguns adultos que fazem esse jogo. Haverá coisa mais chata, mais burra, mais mesquinha? Ao dar uma Barbie de presente é preciso que você saiba que a menina inevitavelmente aprenderá essa fala. Isso feito, uma segunda fala entra inevitavelmente em cena, impulsionada pelas ilusões da inveja.
A menininha pensa: Estou infeliz porque não tenho. Se eu tiver, serei feliz. O jeito de se ter é comprar.
- Papai...
- Que é, minha filha?
- Compra o chalé de praia da Barbie? Eu quero tanto...
Filha na arapuca. Pai na arapuca. Mas há uma saída. E, para ela, procuro sócios. Vamos começar a produzir o próximo e definitivo complemento para a bruxa de plástico: urnas funerárias para a Barbie. Por vezes o feitiço só se quebra com o assassinato da feiticeira - por bonitinha que ela seja...
quarta-feira, 19 de julho de 2006
Dez estratégias simples para ajudar a aumentar a auto-estima do seu filho de 2 anos
A auto-estima de uma criança aflora com frases do tipo, "Eu te amo, não importa o que você seja ou o que você faz." Seu filho irá se beneficiar mais se você aceitá-lo pelo que ele realmente é independente da sua força, dificuldade, temperamento ou habilidade. Então, encha-o de amor. Dê a ele muito carinho e muitos beijos. E não se esqueça de dizer o quanto você o ama. Quando você tiver que chamar a atenção de seu filho, deixe claro que é o seu comportamento - não a criança em sim - que é inaceitável. Ao invés de dizer: "Você está sendo muito mal, porque não pode ser legal?", diga "Empurrar o amigo não é legal, pode machucá-lo. Por favor, não empurre as crianças."
2 - Preste atenção.
Reserve um tempo para dar atenção exclusiva ao seu filho. Isso faz maravilhas para a auto-estima dele porque envia a mensagem de que você acha seu filho importante e valioso. Não precisa ser muito tempo, apenas pare de olhar sua correspondência se o seu filho estiver falando com você ou desligue a TV para responder uma pergunta. Faça contato visual, para deixar claro que você está realmente escutando o que seu filho está dizendo. Quando você estiver com pouco tempo, diga isso ao seu filho sem ignorar suas necessidades. Diga, "Me conte sobre o desenho que você fez, e depois, quando você terminar, eu tenho que ir para a cozinha preparar o jantar."
3 - Ensine limites.
Estabeleça algumas regras razoáveis. Por exemplo, se você disser ao seu filho que ele tem que comer o lanche na cozinha, não deixe ele andar pela sala com biscoitos ou frutas no dia
4 - Ofereça escolhas.
Uma ótima regra: deixe seu filho escolher entre duas possibilidades, já que nessa idade, muitas opções podem causas confusão. Por exemplo, pergunte se ele prefere vestir o pijama de bolinhas, ou o listrado, ou se ele prefere pintar ou desenhar, ou ainda se ele prefere mingau ou vitamina. Ele começará a ganhar confiança com cada oportunidade de tomar uma decisão. Mostrar que você confia no seu julgamento aumenta o senso de valor pessoal do seu filho.
5 - Ofereça riscos saudáveis.
Encoraje seu filho a explorar algo novo, como experimentar uma comida diferente ou descer no escorrega. Apesar de haver sempre a possibilidade de fracasso, sem o risco há pouca oportunidade para o sucesso. Então deixe seu filho experimentar com segurança, e resista ao desejo de intervir. A propósito, tente não "resgatá-lo" se ele mostrar alguma frustração ao desvendar um novo brinquedo. Até mesmo se apressar e dizer "Deixa que eu faço" pode enfraquecer a confiança do seu filho. Você irá construir a auto-estima dele ao equilibrar o seu (da mãe) desejo de protegê-lo com o seu desejo (do filho) de concluir novas tarefas.
6- Deixe que erros aconteçam.
O outro lado, naturalmente, de ter escolhas e de correr de riscos é que seu filho periga cometer erros. Estas são lições valiosas para a confiança dele. Então, vá em frente e deixe seu filho vestir um casaco de lã mesmo sabendo que está calor lá fora (apenas leve roupas mais apropriadas na sua mochila). Quando ele começar a se queixar que está com calor, controle seu impulso de dizer, "Eu não disse?". Pegue seu short e camiseta favoritos e diga algo como "Que tal vestir isso já que estão tão quente?". Dessa forma sua auto-estima não cederá e ele compreenderá que é aceitável cometer erros de vez em quando. Reconhecer e se recuperar de seus erros emitem uma mensagem poderosa a seu filho - fica mais fácil para que seu filho aceite seus próprios enganos.
Compre roupas que sejam fáceis de colocar e tirar, coloque um banquinho para que seu filho possa lavar suas próprias mãos e escovar seus dentes na pia, e encontre um lugar para seus brinquedos e livros que esteja ao alcance da criança. Ao dar ao seu filho de 2 anos os recursos para cuidar das suas necessidades, você irá ajudá-lo a encorajar independência e ter orgulho das suas habilidades de fazer as coisas sozinho.
8 - Celebre o positivo.
Às vezes é muito fácil contabilizar todas as coisas erradas que uma criança fez, mas todos respondem melhor ao encorajamento, então faça um esforço para reconhecer as coisas boas que seu filho faz diariamente dentro do seu alcance. Por exemplo, diga ao papai, "A Nina hoje guardou todos os seus brinquedos". Ela terá prazer em ouvir o seu elogio. E seja específica. Ao invés de dizer "Bom trabalho", diga, "Obrigada por se comportar na fila do banco". Isso irá reforçar seu senso de conquista e valor próprio e ela saberá exatamente o que fez corretamente.
9 - Ouça bem.
Se seu filho tem necessidade de falar, pare e escute o que ele tem a dizer. Ele precisa saber que seus pensamentos, sentimentos, desejos e opiniões importam. Ajude-o a se sentir à vontade com suas emoções dando um nome a elas. Diga , "Eu sei que você está triste porque temos que dar tchau para o carrossel." Ao aceitar suas emoções sem julgamento, você valida os sentimentos dele e mostra que valoriza o que ele tem a dizer. Se você compartilhar seus próprios sentimentos ("Estou tão feliz que vamos ao zoológico") seu filho irá adquirir confiança em expressar seus próprios sentimentos também.
Cada criança precisa de um tipo de suporte dos seus pais que sinalize "Eu acredito em você. Eu vejo que está tentando. Continue!". Encorajamento significa reconhecer progressos - não apenas recompensar conquistas. Significa agradecer a seu filho por guardar seus livros, mesmo que ele tenha esquecido um debaixo da cama. Significa sorrir com carinho enquanto ele trava uma batalha para usar o garfo, apesar da quantidade de comida embaixo da cadeira. E significa dar um abraço por uma tentativa de cantar a música "ABC", mesmo que ele tenha pulado algumas letras.
Há uma diferença entre elogio e encorajamento. Um premia a tarefa enquanto o outro premia a pessoa ("Você conseguiu!" ao contrário de "Estou orgulhosa de você!"). Elogios podem fazer um criança sentir que ela só é "boa" se fizer algo com perfeição. Encorajamento, ao contrário, reconhece o esforço. "Me fale sobre o seu desenho. Eu percebo que você gosta de roxo" é melhor do que dizer "Esse é o desenho mais perfeito que já vi". Elogios demais podem prejudicar a auto-estima porque podem criar uma pressão para realizar e estabelecer uma necessidade contínua de aprovação dos outros. Então, faça elogios discretamente e ofereça encorajamento abundantemente; isso irá ajudar seu filho a crescer para se sentir bem consigo mesmo.
PS: Esse post foi ilustrado com fotos tiradas no domingo passado, no Parque dos Patins, na Lagoa
sexta-feira, 27 de janeiro de 2006
Palmada
Por que não bater:
- porque bater nada tem a ver com ensinar a ter limites, na verdade, são atitudes até aopostas. Quem bate dá uma verdadeira aula de falta de limites próprios e até de covardia;
- porque existem formas infinitamente mais eficientes e humanas de manter a disciplina, com mensagens bem mais positivas do que a agressão física;
- porque, com o tempo, a famosa "palmadinha leve no bumbum", que tanta gente defende como inofensiva, deixa de surtir efeito e acaba se transformando em palmadas cada vez mais fortes e, ao final, em verdadeiras surras;
- porque só bate quem não age antes de "perder a cabeça";
- porque mesmo obedecendo, a criança não aprende verdadeiramente, apenas deixa de fazer certas coisas por medo de apanhar;
- porque bater não resolve os problemas da relação, apenas encobre os conflitos e, ainda assim, por pouco tempo;
- porque depois, quando os pais se acalmam, sentem-se culpados e tendem a "afrouxar" de novo os limites, para aplacar a sensação aflitiva de culpa, perpetuando a situação de conflito;
- porque bater é assinar seu próprio atestado de fracasso como educadador.
- a temer o maior, o mais forte ou mais poderoso;
- a perda de interesse pela atividade que estava desenvolvendo no momento em que apanhou;
- que o comportamento agressivo é válido;
- que a agressão física é uma atitude normal e praticável (afinal se papai e mamãe estão fazendo...);
- que a força bruta é mais importante que a razão e o diálogo;
- que os pais, figuras de quem a criança espera proteção e amparo, não são confiáveis;
- que ocultar ou omitir fatos pode dar bons resultados e evitar umas "boas palmadas" - afinal, quando os pais não ficam sabendo dos erros ou faltas dos filhos, não batem;
- que de quem se espera amor podem vir pancada e agressão.