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quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Dicas de site, blogs etc

logo_globo_mater Recentemente o site do jornal O Globo lançou uma seção só de Maternidade. Nessa seção eu gostaria de destacar dois blogs:

Os dois são atualizados pelo menos uma vez por semana e têm RSS, o que facilita bastante a leitura.

E eu não poderia deixar também de citar a seção "Tire suas dúvidas". Quem responde às dúvidas é o pediatra da Luiza, Dr. Ricardo Chaves!

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Ser Humano

Vejam essa notícia:


Recém-nascidos sentem mais dor do que os pediatras acreditam

PARIS - Os recém-nascidos sentem mais dor do que os pediatras acreditam, de acordo com um estudo inédito do Centro Nacional de Recursos de Luta contra a Dor (CNDR) publicado nesta quarta-feira no jornal francês "Lê Monde".

De acordo com o estudo, os bebês sofrem uma média de 70 gestos dolorosos durante as consultas médicas, dos quais só 60% são realizados com sedação ou alguma forma de anestesia administrada de forma contínua.

Na avaliação dos pesquisadores, as aspirações na traquéia (33%), as punções de sangue no calcanhar (28%) e aplicação na pele de diferentes adesivos (18%) são as práticas que geram mais dor. Foram avaliados, entre setembro de 2005 e janeiro deste ano, 431 recém-nascidos.

O estudo revela "uma freqüência extremamente elevada de gestos dolorosos praticados nas unidades de reanimação" e um uso "grande, mas insuficiente de meios analgésicos durante a realização dos procedimentos", explica seu diretor, Ricardo Carbajal, doutor do hospital infantil Armand-Trousseau, de Paris. Três quartos dos bebês estudados em 13% de reanimação eram prematuros.

Os outros atos médicos foram estudados em cinco serviços móveis de urgências pediátricas da região parisiense.

Até os anos 70, a comunidade médica pensava que os bebês não sentiam dor física e inclusive eram feitas cirurgias sem anestesia. Agora, sabe-se que podem sofrer inclusive antes de nascer, a partir da 24ª semana de vida no ventre materno.

fonte: http://oglobo.globo.com/saude/vivermelhor/mat/2006/10/18/286142297.asp


Essa reportagem saiu ontem e só veio reforçar aquilo que a humanização do nascimento defende: um tratamento mais humano aos recém-nascidos e às gestantes. Eu nunca tive dúvidas de que os bebêzinhos sentem dores como nós e por isso eu optei por ter uma equipe humanizada me acompanhando no parto da Luiza.

Eu não queria que ela levasse uma palmadinha no bumbum assim que nascesse, que fosse tratada como um pedaço de carne, que tivesse tubos sendo enfiados no seu nariz e gotinhas de um colírio pingadas nos seus olhos desnecessariamente.

E graças a Deus e ao meu empoderamento eu consegui oferecer um nascimento tranquilo a ela. Veio para o meu colo assim que nasceu, só não mamou porque não quis e a única intervenção que ela sofreu foi a injeção de vitamina K. E mesmo assim, essa injeção foi aplicada pelo próprio pediatra que tem mãos de fada.

Fiquem agora com uma foto dela assim que nasceu. É bom lembrar que esse post NÃO é uma apologia ao parto normal. Uma cesárea pode ser humanizada. E um parto "normal" pode ser bem traumático se não for acompanhado por uma equipe humanizada.

primeiro_contato

sexta-feira, 11 de junho de 2004

Conversa na pracinha

Manhã de sol. Eu e Luiza na pracinha do condomínio. Uma mãe se aproxima empurrando seu bebê no carrinho e puxa conversa comigo.

Mãezinha: Oi! Linda a sua filha, tá com quantos mêses?

Eu: Quatro.

Mãezinha: Nossa! Como ela é grande, né?

Eu: Pois é...

Mãezinha: Ela já nasceu grande?

Eu: Já... nasceu com 52,5cm e 3,670kg.

Mãezinha: Caramba! Foi cesárea, né?

Eu: Não. Foi parto normal.

Mãezinha: Jura? E o seu médico? Ele não falou que o bebê seria muito grande
para o parto normal?

Eu: Não.

Mãezinha: Mas você não ficou com medo?

Eu: Na verdade eu morria de medo da cesárea. Até troquei de médico com 33
semanas para aumentar minhas chances de um parto normal.

Mãezinha: Nossa eu tinha muito medo do parto normal. Eu e minha irmã
nascemos de parto normal mas desde que eu descobri a gravidez sabia que
queria cesárea. A minha mãe até ficou triste mas eu morro de medo de sentir
dor.

Eu: .....

terça-feira, 21 de outubro de 2003

Nélson Rodrigues

"Depois, a gravidez. Ah, quando eu soube que ela só podia ter filho com cesariana. Não me falem em fio da navalha. O fio da navalha é um título de romance ou de filme. Mil vezes mais frio, e diáfano, e macio e ímpio é o fio do bisturi da cesariana. O marido cuja mulher só pode ter filho com cesariana terá de amá-la até a última lágrima."

Eu já gostava de Nélson Rodrigues, agora que li esse trecho das memórias dele, gosto mais ainda.

segunda-feira, 6 de outubro de 2003

Blog em inglês fala de parto natural

Para quem entende inglês, tem um blog de uma jornalista que é publicado no site Baby Center. A jornalista Anne Marie começou a escrever o blog em Abril de 2003 e agora está com 20 semanas (que nem eu!!!).

O legal é que agora ela está começando a descobrir o mundo do parto natural, primeiro através de um livro e agora já está até em contato com um parteira. Ela inclusive, já trocou de médico (rsrsrs).

Quem quiser acompanhar, o texto em que ela fala sobre parto natural clique aqui.

segunda-feira, 22 de setembro de 2003

José Angelo Gaiarsa

Descobri recentemente esse escritor. Ele é psicológo e tem um livro publicado em 1994 chamado Amores Perfeitos. A Vânia Bezerra da lista Amigas do Parto postou recentemente um texto dele que gostaria de reproduzir aqui. Espero que gostem e tenham paciência para ler até o final....

O CRIME GRITANTE CONTRA A HUMANIDADE QUE SÃO AS MATERNIDADES

Trata-se de um crime de má fé, não de simples ignorância, porque o obstetra tem uma boa idéia dessas coisas e de outras também. Um bichinho qualquer ficou lá dentro meses, em simbiose autêntica. Sai o filhote e a fêmea está em volta, a primeira coisa que ela faz é lambê-lo inteiro, depois come a placenta, fica junto e aquece, dá de mamar. Ela fica lá o tempo inteiro, e essa é a maior garantia de sobrevivência e saúde da mãe e da espécie.

Vamos lembrar mais coisas sobre chimpanzés. Eles estão muito próximos de nós, apesar da diferença de aspecto físico. Dizem os estudiosos o seguinte: a diferença cromossômica entre nós e os chimpanzés é de 1%. A diferença de composição das proteínas é de 1%, embora esse número seja difícil de esclarecer; a história evolutiva do chimpanzé é 99% igual à nossa.

Portanto, nossa diferença em relação aos chimpanzés é bastante limitada.Vamos deixar isso dito porque vou falar muito sobre chimpanzés, e alguém vai dizer: "Mas eu não tenho nada a ver com chimpanzés". Estou mostrando que tem, e muito.

Então voltemos à maternidade, cujo crime básico é: nasceu a criança, afasta da mãe. Eu não sei como é que se pode inventar uma coisa dessas. Nos ambientes médicos se diz que, quando o sujeito não tem vocação para médico ele se torna parteiro, porque 97 vezes em cem a criança nasce muito bem, obrigado.

Algumas maternidades hoje em dia permitem - se a mãe quiser - que o filho fique junto dela. Mas, depois de ouvir esta notícia, as conversas continuaram, e algo mais foi se esclarecendo. É verdade, a proposta é feita, mas não é facilitada. É feita formalmente, compreende? Mas as caras e os jeitos estão dizendo: "Olha, não queira ficar, viu? Lá no berçário ele fica bem. Nós sabemos cuidar dele melhor do que você. Afinal, é seu primeiro filho, e você está fraca e cansada...". Epílogo tristíssimo: a maior parte das mães prefere que o filho fique longe.

A meu ver, um sinal claro de degeneração do instinto maternal produzida pela tecnologia hospitalar e por mil preconceitos descabidos contra o contato. Não que ele seja proibido, não. É apenas sutilmente desvalorizado. Nós somos muito parecidos com o canguru (e todos os marsupiais) num ponto. Vocês sabem que os cangurus nascem duas vezes. A primeira, minúsculo, nem sei como consegue rastejar entre os pêlos e dobras de pele até chegar à bolsa marsupial. Lá, gruda numa tetinha elástica, ficando em contato muito íntimo e muito demorado com ela durante meses e meses. Os marsupiais têm dois úteros, o útero propriamente dito, onde o filhote é gestado, e a bolsa marsupial, também chamada de útero externo. O ser humano é igualzinho ao canguru, só que a bolsa marsupial do nenê são os braços, o colo e o aconchego - o contato permanente com a mãe.

E precisa estar. Vocês sabem que o ser humano nasce e permanece muito tempo frágil e desamparado. Comparem esta história com a de um herbívoro, um búfalo, um cavalo. A fêmea dá a luz andando; o filhote, ao cabo de quinze, vinte minutos, começa a se por em pé, com todas aquelas varinhas espetadas, não sabendo bem manejá-las para andar. Mas é essencial que daí a não muitos minutos ele esteja em pé, porque, se em vez de quinze minutos ele levar 25, a fêmea o abandonará a fim de não se separar da manada, que é sua melhor proteção. Ele tem que aprender depressa a acompanhar o rebanho porque senão a onça pode comê-lo! Ao cabo de duas horas ele é um adulto pequeno, já tem liberdade - e controle - de movimentos. Pode correr, fugir. Pode acompanhar a mãe e a manada. Está seguro.

No começo da vida, um ser humano não sobrevive de jeito nenhum se não tiver um adulto em volta. E durante muitos meses é assim. Ele só vai andar com um ano de idade, a idade da autonomia - ou começo da liberdade. Agora ele sabe alguma coisa de essencial para sua vida. Sabe chegar aonde quer e fugir do que não quer. Nessa hora é que se estaria saindo da bolsa marsupial. É aí, por volta de um ano, que a criança humana é uma criança. Até essa idade é um feto. Até seu aspecto é de um feto - cabeça grande, tronco menor, membros minúsculos. Separá-la da mãe é um crime inominável.

Pelo amor de Deus, se alguém aqui vai dar à luz, segure seu filho perto, mesmo que não saiba o que fazer. Melhor que ele fique perto, desesperado, do que num berçário tranqüilo, aliás, nem é tão tranqüilo. Depois tem todo o resto da história dos berçários, mamadeiras com lactose (açúcar) para que ele pare de chorar, se envenene, perca a fome - e resmungue na hora de mamar.

Minha primeira mulher era médica, trabalhava na maternidade onde deu à luz, não foi nem um pouco bem tratada. E ela era médica de lá! A mesma gritaria, a mesma palhaçada de ordens contraditórias: "Faça força", "empurre". Na sala ao lado tem uma xingando o marido. "Desgraçado... nunca mais"...

A cena do nascimento humano às vezes é um horror. Vejam, não é uma opinião minha; a sociedade seria uma espécie de organismo vivo. Instituições, costumes e preconceitos não surgem por acaso, nem isolada nem independentemente. Entre nós o nascimento imprime, no fundo, a noção de que este mundo é perigoso - muito. Preciso fazer tudo o que me disserem e ficar bonzinho para sobreviver. Estou num mundo mais do que inimigo. Nasci do calor para o frio, do silêncio para o barulho de gritos e berros, do macio para o duro, do acolhedor para a solidão.

Um bom amigo acompanhou o nascimento da segunda filha. Como era médico, deixaram-no ficar. E ele descreveu claramente a enfermeira padrão da sala de parto, que é um monumento de insensibilidade. O que ela menos gosta na vida é de criança; está "farta" de ver bebê chorando e mãe berrando e tudo o mais. Ela pegou a criança, era um dia frio, pôs um pano finíssimo sobre a balança, que é uma lâmina de aço inox, e, sobre o frio da balança, pôs a recém-nascida nua. Natural, é preciso pesar, é a balança, tudo lógico, tudo bem explicado - a gente sempre explica tudo. E assim deixa tudo como está.

Voltam para casa e, um ou dois dias depois, meu amigo chega perto do berço e percebe que a menininha está com as costas encurvadas para não encostar no colchão. Ele percebeu na hora - Graças a Deus, graças a ele, ou até graças a mim, que lhe mostrei muito dessas coisas. O que ele fez? Pôs a mão sob o dorso da criança, mão quente, macia, gostosa. Fez força para cima, um pouco, até a criança perceber o apoio. Aí ele foi descendo a mão devagar, e ela foi descendo as costas junto até encostar na cama.

Ao ser posta sobre o frio do aço inox, ela endureceu e encurvou as costas para evitar o contato gelado. E ficaria assim não sei até quando se ele não tivesse percebido. Ela começaria com um desvio de coluna no primeiro dia de vida! O ser humano é extremamente delicado, não só desamparado mas também muito sensível. Precisamos aprender a cuidar muito melhor das crianças.

GAIARSA, José Ângelo- AMORES PERFEITOS - oitava edição - Editora Gente - São Paulo, 1994 - páginas 94 a 97